Outra vez mais a boa revista Piauí. Um dos poucos exemplos de uma publicação de qualidade que foge do costumeiro ofício de vender tiragens. Foi nesta revista que fiquei informado sobre alguns dos absurdos que ocorrem lá nos Emirados Árabes. De certo, há muito mais absurdos que não chegam às páginas de jornal ou revistas, ou quem sabe às telas dos blogues. A matéria discorre sobre imigrantes que foram tentar a sorte em Dubai, iludidos por falsas promessas. A história que mais me tocou foi de uma mulher que deixou sua filha de quatro anos em sua terra natal para tentar a sorte como empregada doméstica em casa de estrangeiros abonados na cidade da “ilusão”. Trabalhou dois anos como escrava, com a promessa de pagamento no final do ano, até que não suportou e fugiu para a rua. Hoje, vive em albergue ou manicômio, e não tem como voltar pra casa, pois os documentos foram retidos pelos “patrões” de antes. Ela trabalhou para um casal de australianos. Tivessem eles um mínimo de humanidade não aceitariam essas regras de exploração do outro ser humano. Você lê e fica indignado. Depois, quando isso termina em tragédia, o algoz é visto como monstro. Mas se fizermos uma análise de toda a situação, poderemos depreender que o tal monstro foi fabricado por gente dita de bem, que durante anos matou o dia a dia de alguém que tentava a felicidade. Às vezes, os verdadeiros monstros se escondem atrás de tragédias.
O fato é que muito progresso tem sido alcançado com o sangue alheio. Eu me pergunto se Dubai não poderia construir suas torres tratando os trabalhadores de forma humanizada, de acordo com os Direitos Humanos, estes os quais inúmeros desavisados levantam bandeira contra, sem saber o que estão falando. Basta pensarmos que com a existência deles já há inúmeras crueldades, trabalho escravo, bem como tortura, entre tantas atrocidades que ocorrem e que não sabemos. Imaginemos se não existissem os Direitos Humanos, cuja defesa é feita por gente corajosa, debaixo de muitas críticas.
Não sei para o leitor, mas para mim é inadmissível que um presidiário seja massacrado entre as paredes de uma cadeia, sendo que seus gritos não podem ser ouvidos por mim, nem por você. Mas não sei se faria alguma diferença se ouvíssemos pedidos de socorro de alguém que é visto como o lixo da sociedade. Curioso é que todo lixo é produzido, de maneira que a obviedade do que está nas entrelinhas do que digo aqui derruba a opinião raivosa de muitos que por aí estão, entre eles diversos que roubam de modo mais polido, sem o uso de violência, como se cometessem o crime permitido.
Eu me recordo de um senhor que, ao avistar com seus olhos menores de rua badernando no saguão de um prédio, fez o discurso do extermínio como melhor solução. E aí me lembro de uma conversa que tive com um homem que dirigiu a FEBEM em São Paulo por longos quatorze anos e me relatou um fato absurdo demais, mas que de certo está ao gosto do senhor aqui mencionado. Ocorre que funcionários da instituição, feita para recuperar jovens menores que cometeram deslizes aos olhos da lei, juntamente com policiais, faziam a aposta fatal. Quem ganhasse o jogo lá no boteco poderia escolher qual menor seria espancado, mesmo que até a morte. Daí que o ex-diretor, que antes de assumir o cargo lecionava música para os menores, deu falta de um garoto que se destacava em suas aulas. Ao ser informado onde estava o menino, foi ao seu encontro, quando se deparou com um rosto desfigurado de tanta pancada que levara. “Ele era praticamente um músico. Eu o perdi”. O menino nunca mais freqüentou as aulas do professor, e não sabemos se ele ainda vive. Na rua, ele até pode ser dado como exemplo do que muitos chamam de “monstro”. Melhor indagarmos sobre os criadores desses monstros, ideal fecharmos a fábrica.
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Veronica deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Monstros fabricados":
Esse texto possui uma nota da realidade em que muitas pessoas preferem ignorar. Tenho conhecimento de muitos relatos feitos por duas pessoas que vivem neste meio (diretor geral da Febém e uma carcereira da prisão feminina) ex- colegas de faculdade.
Concordo plenamente com o autor e acho ainda que essas pessoas que vivem nessas instituições não terão chances de reabilitação enquanto nosso sistema penitencário estiver sobre os moldes de corrupção, vingança, descaso e abandono. É triste, porém verdade!
Verônica Araújo, 29, Pedagoga
Parabenizo mais uma vez o autor do blog.Seus textos são escritos de forma que faz com que nos aproximemos da realidade de maneira sutíl. Um desses que mais me chamou a atenção, que me tocou bastante, foi "Monstros fabricados" , que relata as condições precárias que os brasileiros , em sua maioria vivem, e, infelizmente, não recebem apoio em seu próprio país , sendo obrigados a sair embusca de uma vida melhor, vivendo sobre um domínio mais cruel que um ser humano pode viver. Aí eu me pergunto onde estão nossos direitos,cadê aqueles que defendem a nossa diguinidade. Nossa Constituiçao diz: temos direitos e deveres. Onde estão nossos direitos? Certamente estão bem guardados, onde se quer foram abertos. O único direito que é o de sonhar, tentando encontrar meios para uma vida melhor,e na maioria das vezes, quase sempre nem tem um começo, sabemos qual fim desta dura realidade.
Naty Macedo, 23, Universitária


