Monstros fabricados

Quarta-feira, Julho 01, 2009 · 1 comentários

texto reflexivo antes das férias
ppppppppppppppppp
Algumas leituras feitas e a reflexão que fica. Estranho saber alguns absurdos que se dão pelo mundo. Pior, é o cálculo do muito que ocorre e não sabemos. Acho que deveríamos fazer o movimento dos "Sem Informações". Talvez seja necessário refletirmos sobre o que não nos é informado. Nas próximas linhas ilustro esse pensamento.

Outra vez mais a boa revista Piauí. Um dos poucos exemplos de uma publicação de qualidade que foge do costumeiro ofício de vender tiragens. Foi nesta revista que fiquei informado sobre alguns dos absurdos que ocorrem lá nos Emirados Árabes. De certo, há muito mais absurdos que não chegam às páginas de jornal ou revistas, ou quem sabe às telas dos blogues. A matéria discorre sobre imigrantes que foram tentar a sorte em Dubai, iludidos por falsas promessas. A história que mais me tocou foi de uma mulher que deixou sua filha de quatro anos em sua terra natal para tentar a sorte como empregada doméstica em casa de estrangeiros abonados na cidade da “ilusão”. Trabalhou dois anos como escrava, com a promessa de pagamento no final do ano, até que não suportou e fugiu para a rua. Hoje, vive em albergue ou manicômio, e não tem como voltar pra casa, pois os documentos foram retidos pelos “patrões” de antes. Ela trabalhou para um casal de australianos. Tivessem eles um mínimo de humanidade não aceitariam essas regras de exploração do outro ser humano. Você lê e fica indignado. Depois, quando isso termina em tragédia, o algoz é visto como monstro. Mas se fizermos uma análise de toda a situação, poderemos depreender que o tal monstro foi fabricado por gente dita de bem, que durante anos matou o dia a dia de alguém que tentava a felicidade. Às vezes, os verdadeiros monstros se escondem atrás de tragédias.

O fato é que muito progresso tem sido alcançado com o sangue alheio. Eu me pergunto se Dubai não poderia construir suas torres tratando os trabalhadores de forma humanizada, de acordo com os Direitos Humanos, estes os quais inúmeros desavisados levantam bandeira contra, sem saber o que estão falando. Basta pensarmos que com a existência deles já há inúmeras crueldades, trabalho escravo, bem como tortura, entre tantas atrocidades que ocorrem e que não sabemos. Imaginemos se não existissem os Direitos Humanos, cuja defesa é feita por gente corajosa, debaixo de muitas críticas.

Não sei para o leitor, mas para mim é inadmissível que um presidiário seja massacrado entre as paredes de uma cadeia, sendo que seus gritos não podem ser ouvidos por mim, nem por você. Mas não sei se faria alguma diferença se ouvíssemos pedidos de socorro de alguém que é visto como o lixo da sociedade. Curioso é que todo lixo é produzido, de maneira que a obviedade do que está nas entrelinhas do que digo aqui derruba a opinião raivosa de muitos que por aí estão, entre eles diversos que roubam de modo mais polido, sem o uso de violência, como se cometessem o crime permitido.

Eu me recordo de um senhor que, ao avistar com seus olhos menores de rua badernando no saguão de um prédio, fez o discurso do extermínio como melhor solução. E aí me lembro de uma conversa que tive com um homem que dirigiu a FEBEM em São Paulo por longos quatorze anos e me relatou um fato absurdo demais, mas que de certo está ao gosto do senhor aqui mencionado. Ocorre que funcionários da instituição, feita para recuperar jovens menores que cometeram deslizes aos olhos da lei, juntamente com policiais, faziam a aposta fatal. Quem ganhasse o jogo lá no boteco poderia escolher qual menor seria espancado, mesmo que até a morte. Daí que o ex-diretor, que antes de assumir o cargo lecionava música para os menores, deu falta de um garoto que se destacava em suas aulas. Ao ser informado onde estava o menino, foi ao seu encontro, quando se deparou com um rosto desfigurado de tanta pancada que levara. “Ele era praticamente um músico. Eu o perdi”. O menino nunca mais freqüentou as aulas do professor, e não sabemos se ele ainda vive. Na rua, ele até pode ser dado como exemplo do que muitos chamam de “monstro”. Melhor indagarmos sobre os criadores desses monstros, ideal fecharmos a fábrica.
Não sei o que o leitor pensa a respeito. Eu fico extremamente indignado com fatos assim. Pior é saber que eles ocorrem à revelia da lei. A verdade é que raramente somos informados do que ocorre por baixo do tapete da vigilância, sendo que muitos, pagos para manter a ordem, preservar vidas, são os mesmos que tiram vidas, condenadas, muitas vezes, por condições sociais adversas. Para aqueles que o mundo pra si é perfeito, pois consomem e estão incluídos, meu lamento. Este mundo somente será melhor quando vivermos de forma humanizada e desenvolvida. Tudo bem, isto é absoluta utopia. Mas a busca por uma vida digna para todos não deve cessar. O blog volta no primeiro dia de Agosto.

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Veronica deixou um novo comentário sobre a sua postagem "
Monstros fabricados":

Esse texto possui uma nota da realidade em que muitas pessoas preferem ignorar. Tenho conhecimento de muitos relatos feitos por duas pessoas que vivem neste meio (diretor geral da Febém e uma carcereira da prisão feminina) ex- colegas de faculdade.
Concordo plenamente com o autor e acho ainda que essas pessoas que vivem nessas instituições não terão chances de reabilitação enquanto nosso sistema penitencário estiver sobre os moldes de corrupção, vingança, descaso e abandono. É triste, porém verdade!

Verônica Araújo, 29, Pedagoga



Parabenizo mais uma vez o autor do blog.Seus textos são escritos de forma que faz com que nos aproximemos da realidade de maneira sutíl. Um desses que mais me chamou a atenção, que me tocou bastante, foi "Monstros fabricados" , que relata as condições precárias que os brasileiros , em sua maioria vivem, e, infelizmente, não recebem apoio em seu próprio país , sendo obrigados a sair embusca de uma vida melhor, vivendo sobre um domínio mais cruel que um ser humano pode viver. Aí eu me pergunto onde estão nossos direitos,cadê aqueles que defendem a nossa diguinidade. Nossa Constituiçao diz: temos direitos e deveres. Onde estão nossos direitos? Certamente estão bem guardados, onde se quer foram abertos. O único direito que é o de sonhar, tentando encontrar meios para uma vida melhor,e na maioria das vezes, quase sempre nem tem um começo, sabemos qual fim desta dura realidade.
Naty Macedo, 23, Universitária

Você é o outro

Quarta-feira, Junho 24, 2009 · 1 comentários

O que se deu no Café seria gostoso discorrer a respeito, mas abro mão da opção, talvez para não ser repetitivo. Apenas digo que o açúcar preferido me foi oferecido, mas já era tarde, usei o refinado mesmo.
Sim, eu estava silencioso, trancafiado em meu mundo. Sentia que era preciso centrar-me novamente. Percebera um descompasso em meu rumo, certa perda de trilhos. Cada um tem sua dinâmica. Quando me vejo assim é hora de desacelerar, estacionar. Do contrário, os dias se tornam um fardo.

Se abri mão de relatar o rápido instante em que consumia xícara com a bebida preferida, faço o mesmo comigo. Fico de lado. É um silêncio de mim. Por favor, não reclame. “Deixe em paz meu coração. Qualquer desatenção, faça não”.


Caminhamos por aí e seguimos armados de críticas. Parece que cobramos o oposto das imperfeições em nós. Não raro, surgem rápidas discussões. Críticas, então, dão-se a todo o momento. Claro que condenar as pessoas é muito mais fácil e, talvez, até prazeroso. Buscar a compreensão é caminho mais difícil e requer reflexão.

O sujeito reclamou do motorista que buzinou levemente para lhe avisar que o farol abrira. Não entendeu que aquilo era, em verdade, um favor em prol da coletividade. Acanhou-se ao ser informado desta possibilidade. Preferira o comportamento belicoso. Se era por repetição do que já viu ou gosto pela briga, não se sabe ao certo. Qual das possibilidades não importa, o macro era o equívoco.

Precisava virar à direita, mas parara o carro à esquerda, ao lado de outro carro, guiado por mulher, cuja idade não é sabida. Ele cometera um erro em se tratando de direção defensiva. O correto seria se manter à direita, logo atrás do veículo da motorista citada, que esperava o sinal verde. Abriu o farol e ele deu seta, pedindo passagem. Ouviu xingos e agressiva buzina. Poucos metros adiante, ambos os carros lado a lado novamente. Tranquilamente, baixou o vidro. Do outro lado, conforme relatado a este blog, em trejeitos agressivos, a mulher também baixou seu vidro. Constrangeu-se ao ouvir pedido de desculpas, bem como relato educado da necessidade ato, sabido equivocado.

Não façamos a condenação de ninguém aqui. Bastam as conseqüências dos atos, que podem ou não servir de lição. Melhor é abraçar a diplomacia, basear-se em compreensão e baixar as armas. Mesmo por que o seu desagrado com a outra pessoa pode ser momento circunstancial. Vai ver você não estava bem. De qualquer forma, não se pode entender isto como proposta covarde de dar a outra face. Melhor ser justo do que ser bonzinho e cair em seguidos desenganos.

Sim, todos sabemos, há os que optam pelo comportamento belicoso. Seu desamor por si redunda em severo desprezo pelo outro. E é curioso ter com alguém assim. Quando você observa a pessoa representar sentimentos de amizade e, vez ou outra, ser denunciada por sua real natureza e seus sentimentos verdadeiros. Em situações assim, você sente como se um dos mestres da literatura ainda estivesse a escrever suas histórias de críticas de costumes, utilizando-se de suas vivências com pessoas, estas os personagens de suas histórias.

Nelson Rodrigues era um sujeito que conhecia bem o ser humano. Talvez guardasse consigo certo desprezo pela obra humana. Afirmou certa vez que se todos soubessem o que cada um faz na cama, ninguém se olharia direito. Isso me traz a recordação daquela mulher dita religiosa, presa em sua saia. A honestidade e moralismo vendidos eram contraditos pelo gosto seu de ter com homens desconhecidos conversas eróticas, bem como deixá-los exibirem partes íntimas pela webcam. Essa mesma mulher apostou na prestação gratuita de serviço o caminho para atingir objetivos carnais com certo homem que lhe pareceu interessante. Iludiu-se de algum modo e fez aposta no êxito. Se percebeu seu engano, não se sabe de modo preciso. O fato é que seu plano foi absoluto insucesso, não sobrando nem amizade, nem nada. Ela afastou-se do rapaz e abandonou por completo a prestação de serviços, que por ser voluntária poderia ser interrompida sem qualquer prejuízo, nem mesmo de amizade, acaso esta existisse de fato.

O ser humano realmente é algo curioso. Por trás de suas ações e seus discursos, intenções que nem sempre ele próprio sabe. Não que todos sejam assim. Você vai precisar de tempo para peneirar as amizades. Claro, os amigos de fato, sinceros nos atos e sentimentos, serão poucos, o que é normal. No decorrer dos dias, veremos sucumbir as pseudo-amizades. E cada um de nós verá a verdade dos nossos sentimentos pelo outro. Chega um momento em que o discurso se esgota, perde toda a sua validade ou necessidade. A circunstância é outra. Assim, por mais que nos enganemos e tentemos ludibriar o outro, o engodo morre por si. Falece o personagem inventado. Mas a história segue, e a dinâmica não cessa. O mundo gira. Histórias se repetem. Os discursos mudam apenas de boca. E todos fazemos isto. Eu. Você. O outro.

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Bem legal essa indefinição e o suspense pelo não revelado .É poesia em forma de prosa.
Dema
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O doce do seu café estava perfeito, visto que a preferência pelo açúcar é mero capricho.O erro do ser humano é procurar sua completude em outrem. errado!!! A resposta para todas as nossas divagações estão dentro de nós mesmos!! momentos de prazer não nos transformam em pessoas melhores...Silêncio, preciso pensar!!! Preciso virar à direita, não importa que minha vida esteja tomando o rumo oposto, preciso virar à direita, o motorista não teve opção, mas a motorista poderia impedir a passagem ou ceder espaço, assim é a vida....As escolhas podem não ser as melhores, porém, dito por Mário Quintana: "A vida é o dever que trouxemos para fazer em casa....., siga em frente....jogue as cascas no chão.....aproveite seu tempo, pois o mesmo não voltará"
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Beijos para esse autor confuso e silêncioso.
Veronica

"Fim de caso"

Terça-feira, Junho 16, 2009 · 2 comentários

Acho que já citei o filme “Fim de caso”, não tenho certeza. Poderia averiguar, mas não quero e isto é absolutamente desimportante, como diversas ditas verdades por aí vendidas, alimentadas pela carência e medo daquele que compra, sem direito a alguma espécie de PROCON.

No filme em questão, que é baseado na obra literária de mesmo nome, o personagem central é um escritor. Corroído pelo ódio, escreve um livro norteado pelo sentimento citado. Por longa data sofreu sem saber por que a mulher que amava afastara-se dele repentinamente, sem qualquer explicação. A dor da incerteza fez seus dias cinzas e sua alma embrutecida.

O tempo passou e o revolto escritor reencontrou a mulher que tanto ama. Sua raiva era tamanha que não deixou que ele ouvisse a explicação da bela dama, obrigando-a a ir embora aos prantos, mediante os insultos ouvidos. O problema é que ele possuía informações equivocadas de que ela estaria com outro homem. Sua raiva era do tamanho do seu amor por ela, sentimentos que o consumiam amiúde.

Demorou para que ele soubesse de toda a verdade. Sua amada, embora atéia, fizera uma promessa a Deus, pedindo a Este que salvasse a vida de seu homem. O escritor ferira-se com a explosão de uma bomba. Estavam vivendo a 2ª Guerra. O preço que ela ofertara em monóloga negociação era justamente se afastar dele para sempre.

O tempo passou e Bendrix, de posse do diário de Sarah, descobriu toda a verdade. O casal reatou, quebrando o compromisso da promessa. Contudo, uma doença a levaria para sempre. Ela morre, deixando no escritor uma revolta sem cura por Aquele que o teria salvo mediante preço já mencionado. O livro atual em que trabalha é um culto ao ódio. Não por Sarah, ou pela vida. Mas por Deus.

O filme termina com o escritor narrando o final de seu romance. Bendrix pede que Deus proteja o marido deixado por Sarah. Que cuide da alma de sua amada, o qual teria sido a ferramenta que usou para provar sua existência a Bendrix.

A última cena termina com o seguinte pedido por parte do escritor a Deus: “Quanto a mim, por favor, esqueça-me”.

O filme foi dirigido por um diretor católico. Trata-se de um dos mais belos filmes sobre o amor. A fé é mero detalhe, que é “onde Deus reside”, aprende-se na faculdade de jornalismo. O momento mais belo é quando Sarah morre e seu marido grita por Bendrix, que ele sabia ter sido amante de sua mulher. Pede que o escritor o ajude, pois ele não saberá viver sem sua esposa. Em cena anterior, reconhece que não foi um bom marido. E Bendrix atende ao pedido do viúvo, cuidando dele afetuosamente. Ato belíssimo entre dois homens. Um consumido pelo ódio e o outro pelo medo e sua fragilidade.
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Alan disse...
Bela resenha, Del! Lembro-me que você já havia falado desse filme. Quero assisti-lo!Abraço
Junho 17, 2009


Melanie Brown disse...
Historia muito forte!!!Assim como o pedido final do escritor a DEUS. A frase me deu arrepios...

kkkkk
Deo, espetacular ou espetaculoso a trama do filme, a sinceridade dos personagens, a definição radical da personalidade deles, nos s dois lados do coração humano, iguais em tudo, mas de sinais trocados: Amor & Ódio.
Vou assistir. Merece.
Me lembra um pouco umas passagens do filme de Edith Piaf, naquilo que há de intensa vibração humana, de gente, de luta obstinada pela realização de um sentimento ou pelo sucesso de dons que a pessoa acredita ou sei lá... . Tesão de viver com intensidade o sabor do próprio viver.
Tchau.
Prof. Celso.

llllllllll

Bacana, mas perdi o tesão de assistir ao filme. Na verdade, nem sabia de existência dele. Então fica tudo como antes. Mas você continua a escrever muito bem.Grande abraço, Jorge

Açucar mascavo

Domingo, Maio 31, 2009 · 1 comentários

Ela já sabe o que vou pedir, não é preciso dizer novamente. Prepara o café-curto da maneira como eu gosto. Deita a xícara sobre o balcão sempre limpo. Mas, outra vez mais tenho que pedir o açúcar mascavo, o que já me incomoda. Claro que vai do estado de humor que estou, o que resultará no grau de paciência. Não preciso informar como estão estes ingredientes em mim. Mas fica o aviso de que não se deve esquecer das intensidades. Meu humor não está dos piores.

Não há pão de queijo, e não é a primeira vez que se dá tal falta. Habilmente, ela me oferece bolo de laranja como opção, garantindo plena satisfação. Somos indelicados em utilizar um outro cliente como referência. Aceito a sugestão e sigo certo de que não é bolo velho.

Ao caixa, o senhor que teme olhar e sorrir se esquece de cobrar o bolo. Aviso-lhe do equívoco para que a indicação a contento não fique sem a devida e merecida cobrança. No país da malandragem, querer levar sempre vantagem não é prerrogativa de todos, felizmente. São aqueles que sabem que tal comportamento fecha portas, afasta pessoas.

Quando adentrei ao Café aqui mencionado, não demorou e percebi que caçava uma história. Logo que vi o único assento livre para me sentar ocupado pelo pacote daquela mulher, senti certa contrariedade. Assim, foi proposital ficar ali em pé ao lado dela. De qualquer forma, atitude gentil esperada ela não tomou. Sentia-me no direito e por um instante pensei pedir licença de modo até irônico, mas não o fiz. Minha comunicação deveria ser apenas com o corpo. Assim mesmo, olhei para o lado a fim de fazer avaliação que fosse, sem creditar nisto qualquer certeza. Aliás, deixemos as certezas para os idiotas, conforme ensinou o intelectual. Ao ver que se tratava de uma senhora de idade, aparentemente tranqüila em seu mundo, abracei a compreensão e abandonei minha guerra particular. O homem ao lado se levantou e se dirigiu para o caixa. Puxei o banco de madeira que ele abandonara e me sentei. Não me recordo se a senhora se foi primeiro do que eu.

O corpo comunica, todos sabemos disto. Gestos podem contradizer palavras. Por isso, não me fio tanto a discursos. Necessito avaliar as atitudes. Diversas vezes percebo o engodo. Em outras, avalio de forma equivocada. E, claro, todos nós seguimos assim, entre acertos e erros sobre os outros. Desavisados e errantes os que carregam consigo a plena certeza em suas avaliações. Piores aqueles que utilizam cartilhas para decifrar a alma alheia.

Certa vez, em numa conversa virtual, uma colega psicóloga fez uma afirmação a meu respeito. Baseou-se no que eu havia dito sobre uma ex-namorada. Fizera ali a explanação de sua teoria. Firmara contrato com a “certeza”. Sua precipitação, bem como o uso da superficialidade para fazer uma avaliação, deixou-me um tanto indignado, embora nada surpreso. Não era a primeira vez que ouvia de uma profissional da alma precipitações e superficialidades. Sempre depositei nisto o baixo nível filosófico da pessoa, bem como a necessidade de aplicar os conhecimentos obtidos durante sua formação, para os quais muitos dão, equivocadamente, caráter absoluto. Felizmente, há bons profissionais no mercado, mas de certo custam caro, não são para todos.

Penso que as pessoas refletem o que são. Mas não significa que podemos avaliar baseados no pouco que ouvimos, em dada circunstância. Aprendi com um jornalista que o ser humano é absolutamente circunstancial. De modo que, é preciso esperar outros momentos para saber mais quem pode ser aquela pessoa, sem, contudo, atingir a exatidão. Quantos vi vendendo felicidade naquele primeiro contato, para depois perceber enorme infelicidade? Quantos ainda verei?

Confesso certo cansaço em ver as pessoas se referirem às outras com tantas certezas, tantas pedras. Algumas fazem tamanhas generalizações que diminuem o ser humano a simples produtos pré-programados. Aprendi que poucos são aqueles que podem ouvir e ajuda-lo a entender questões relacionadas a um outro. A maioria vai mesmo é atirar pedras de modo insano. É como se estivessem diante de um trágico e inaceitável espelho.

Na sociedade dos discursos é preciso ficar atento aos que vivem no palanque. São como políticos que dizem o que você quer ouvir, mas que pouco interessados estão em promover crescimentos, quais sejam. Lembrando que na eterna campanha da vida, este que escreve também é candidato. Por vezes, pode se equivocar sem perceber, fazer discursos desconexos com sua realidade. De qualquer forma, guarde suas pedras para você. E aprenda a gostar do espelho à sua frente.



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Belo artigo. Se quiser, acrescente este livro às minhas indicações anteriores?
O tambor (Günter Grass): magistral retrato da Alemanha nazista por meio das memórias de Oskar, que decide deixar de crescer aos 3 anos de idade.
Abraço
Adalton


Adelcir Oliveira, autor do blog

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.João Scortecci, poeta, é o editor-responsável pelo site Amigos do livro. Após conhecer o trabalho do autor deste blog, Adelcir Oliveira, inseriu seu nome entre os autores brasileiros. Ao clicar no link, o leitor poderá conhecer outros escritores no Brasil, entre eles os que já se consagraram.
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Palavras da revisora

Diário virtual é o significado da palavra “blog”, o qual registra desejos, anseios, ações significativas ou não, paixões, críticas, enfim, é o “olho mágico” de alguém, que faz participar a outras pessoas algo da necessidade humana, através da tecnologia moderna. Opiniões&Crônicas é um blog que registra criatividade no ato de escrever, por meio da objetividade e de excelente qualidade. O nome da página retrata perfeitamente o conteúdo publicado, pois mostra textos críticos, reflexivos, informativos e literários.A presença literária está inserida nas crônicas urbanas, gênero predominante no trabalho do autor. Muito interessante a exposição – sincera e transparente – dos fatos observados e vividos citados pelo escritor. Ele demonstra que não se inspira nos autores consagrados da literatura, valorizando sua obra pela originalidade.Vale a pena saborear cada linha aqui registrada e perceber que “tudo vale a pena, se a alma não é pequena”.

O mundo dos livros - por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

"Em busca do tempo perdido" - Comentário de Adalton César

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

Adalton indica

A dívina comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).
A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)
As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)
consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)
Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)
Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)
Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)
O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)
Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

Expediente

Conselho Editorial
Adelcir Oliveira
Alan Davis
Adalton César
Lilian Guimarães

Revisão de textos em português
Adalton César e Lilian Guimarães

Revisão de textos em espanhol: Adalmir Sandro


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